[Des] Ensinando

Desconstruindo ideias e reformando pensamentos

Eu falo do jeito que eu querê

Em “O direito ao palavrão“, Luis Fernando Veríssimo diz que há certas coisas que só o palavrão traduz: “O direito ao ‘foda-se’ deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se! Grosseiro, mas profundo… pois se a língua é viva, bela e malcriada, nem o Prof. Pasquale explicaria melhor. ‘Nem fodendo’…” Verdade. É por meio de uma língua que o ser humano se individualiza em busca de identidade e distinção. Portanto, determinadas variantes linguísticas (denominadas cultas, a expressão da classe dominante) são mais valorizadas, recaindo sobre as populares como forma de preconceito social, causando a diminuição do indivíduo por sua maneira de ser.Por certo, a distinção linguística existe e está relacionada aos grupos menos favorecidos. Por exemplo, na crença de que existem línguas desenvolvidas e línguas primitivas, só a língua das classes cultas possui gramática, ou ainda que povos

A Língua dos Rolling Stones: “antiautoridade e sexy”

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indígenas não possuem língua, apenas dialetos. Nesse contexto, as pesquisas linguísticas ganham legitimidade, pois enquanto um fenômeno complexo, o estudo da língua está estritamente ligado a história da humanidade e seus diversos períodos, contribuindo para a compreensão do meio e suas motivações nas lutas de classe.
Kaspar Hauser, ao ser encontrado em uma praça de Nuremberg, mal conseguia se comunicar em um idioma, pois passou os primeiros anos de sua aprisionado em uma cela, sem manter contato verbal com outras pessoas. Após a convivência com a civilização, paulatinamente, aprendeu a falar. Ou seja, a língua, bem como o ato da fala, é uma construção da sociedade. Da mesma forma que uma criança faz com as primeiras palavras, a maneira de dizê-las, posteriormente, indicará interesses, seja por água, mãe ou chupeta, como por dinheiro e prestígio.

Dessa forma, a educação acadêmica vem para descontruir esta opinião formada a priori de que o ser culto é aquele que sabe a norma padrão, quando na verdade, culto é aquele capaz de adequar seu léxico para determinadas situações, que dominando as variantes consegue estabelecer (em todos os contextos), o princípio básico da linguagem, a comunicação. Paulo Freire e Gramsci concordam que a escola é a expressão dos interesses da classe dominante, mas também está presente na obra deles que os professores devem produzir uma ‘contracultura’. Nesse sentido, o método freiriano é extremamente elucidativo, pois defende o conhecimento como algo construído em comunhão, através da dialogicidade.

Assim, entende-se que o preconceito linguístico é um preconceito social. Denegrir alguém pelo modo que se expressa (segregando como fora de autoafirmação no sistema) é agredir o próprio ser humano, pois não existe indivíduo sem língua. A comunicação (e tudo mais que ela engloba como consequência) é o que distingue os homens dos demais animais.

“Errado é aquele fala correto e não vive o que diz.” Zaluzejo – O Teatro Mágico 

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Sobre Nique

leve tendência à psicose

2 comentários em “Eu falo do jeito que eu querê

  1. bregomes
    23 de julho de 2013

    A minha professora de linguagem, depois que saiu aqueles “erros absurdos” do enem, o qual ela é corretora, comentou que: “mais grave que escrever “serumano”, é errar uma vírgula e mudar todo sentido do texto”. E é exatamente isso, tem pessoas que julgam um texto bom pela quantidade de palavras inusuais que este possui, e não se a mensagem foi passada de maneira compreensível. Assim, pessoas prolixas são bem vistas, mas não são bem entendidas, e isto é um sério problema porque foge do real objetivo de um texto que é repassar a informação. E só pra finalizar, um outro ponto do texto, o qual achei interessante, foi: “ou seja, a língua, bem como o ato da fala, é uma construção da sociedade.”. Falar que um carioca fala melhor o português do que o nordestino é preconceito linguístico, essas pessoas vivem em ambientes diferentes, os costumes são diferentes, não tem lógica esta comparação!

  2. Nique Lima
    24 de julho de 2013

    Eu penso que quando é pedido uma dissertação no vestibular, se quer examinar a capacidade da pessoa argumentar e defender seu ponto de vista de forma coerente. Tanto que muitas vezes, nas melhores redações da Fuvest e da Unicamp, por exemplo, existem erros de ortografia, mas se tornam irrelevantes frente as ideias expostas.
    Sobre o Enem, não tem como zerar um texto por cometer um erro apenas. Condenam o sistema aplicado, mas não entendem a grade de correção. Acho ridículo escrever uma receita de miojo ou o hino do Palmeiras no meio da composição, mas isso era considerado uma tangência ao tema, prevista no edital com redução da pontuação, mas não anulação. Diante de tanta polêmica, a partir desse ano, gracejos do tipo anulam o texto.

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Publicado em 23 de julho de 2013 por em Sociedade.
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